Livro: Sombras na Place des Vosges
Título Original: L'Ombre Chinoise
Autor (a) Georges Simenon
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 136
ISBN: 9788535925944
Sinopse: Raymond Couchet, dono de um grande laboratório de soros, é assassinado em seu escritório na Place des Vosges. No Hôtel Pigalle, vivem a amante da vítima e o filho do primeiro casamento de Couchet, o qual logo desperta as suspeitas de Maigret. Mas de repente, o filho comete suicídio. E ele sabia o que estava por trás da morte do pai.

 
     Este é mais um conto do Comissário Maigret, o mocinho da série de livros (28 ao todo, sem ordem de leitura) de investigação e mistério de Georges Simenon — um brilhante escritor do século XX, que marcou a literatura europeia com seus romances policiais, tomando como cenário, na grande parte de suas obras, a sublime e imponente França. E assim fez com Sombras na Place des Vosges.
     Em um prédio da periferia francesa, situado na Place des Vosges, um crime aconteceu na calada da noite. O milionário Raymond Couchet teve o dinheiro do laboratório do qual era dono, roubado, e logo em seguida foi assassinado. O Comissário Maigret é logo chamado à cena do crime pela zeladora do prédio, que não sabe lhe dar mais informações sobre o ocorrido, apenas que achara o corpo baleado no escritório. A partir daí, Maigret passa a se envolver com aquele caso, e consequentemente, com as pessoas que rodeavam Couchet — como sua amante, seu filho, sua ex-mulher e seu atual marido, sua viúva e a família dela — sabendo que o responsável pode ser qualquer um deles. Ou, provavelmente, mais de um.
     Infiltrando-se cada vez mais na vida daquele homem, Maigret passa a vê-lo quase como um amigo, com o detalhe peculiar que a amizade iniciara depois da morte do outro. Conhecendo seu passado, e as relações nas quais se via envolvido, sua visão é ampliada. O Comissário não vê o caso apenas de forma superficial – se assim fosse, não conseguiria ir muito longe. Ele também analisa os sentimentos de todos aqueles que considera suspeitos, encontrando razões para cometer um assassinato em cada um deles, criando uma teia enorme e confusa, que, ao final, é logicamente desenrolada.
     Essa foi minha primeira experiência com uma obra de Georges Simenon, mas a ficção policial e o mistério foi algo que me instigou. E não pude evitar comparar a história de Simenon com as de Ágatha Christie: além das temáticas serem as mesmas, as histórias também são curtas (percebi que livros finos, com poucas páginas, são marcas comuns em ambos escritores, e isso faz com que o leitor se envolva facilmente). Também há traços do Realismo em cada parte do conto, e Simenon é justamente conhecido por seus “romances duros”, com grande densidade psicológica – o que me faz ter ainda mais vontade de ler outras obras do autor.
     Narrado em terceira pessoa, mostra o ponto de vista de Maigret, circulando sempre em torno dele, de suas descobertas, pensamentos, etc. Tudo isso de forma simples, sem revelar muito profundamente os sentimentos do personagem central, apenas impressões superficiais que ele concluía a respeito dos demais. Os detalhes eram bem descritos, fazendo com que tudo fluísse e fosse imaginado com facilidade. E é justamente essa escrita detalhada (e formal, considerando a época) que faz com que os personagens sejam construídos — através de suas roupas, seus modos de caminhar, mover as mãos, suas moradias, enfim, tudo observado minuciosamente por Maigret.


"São impressões que não se explicam; sentia-se que havia alguma coisa anormal no prédio, alguma coisa que se manifestava desde a fachada”.
     Interessante destacar a facilidade com que Simenon pode fazer com que o leitor entre na história, juntamente com o protagonista, que pouco tempo antes jamais imaginaria que estaria inserido com muitíssima facilidade nesse caso, conseguindo se infiltrar e deduzindo de forma prática como o assassinato fora cometido. Isso faz com que nós entremos em seu raciocínio sem muito esforço, como se estivéssemos em seu lugar.
     O Comissário Maigret, na verdade, não passa de mais um leitor, como todos nós, decifrando os mistérios de um crime. Não é difícil imaginá-lo como um espectador, pois é exatamente isto que ele é. Sua forma de captar os suspeitos em suas maiores sutilezas é o que um leitor mais atento faria ao absorver cada detalhe escrito numa obra. Até os menores personagens conseguem chamar atenção, de forma que também sejam vítimas de desconfiança. São bem construídos e se adéquam a uma França do século XX, com seus temores e psicológicos bem decifráveis, quase transparentes, para Maigret.
     O final não foi nada arrebatador como normalmente se vê em outros livros do gênero – com uma grande revelação, emoções à flor da pele e surpresas chocantes. O desfecho era previsível desde o início, mas foi ele que carregou o maior ápice de todo o enredo, pois a descoberta do grande mistério trouxe uma carga de outras coisas importantes. O que estranhei também foi tudo ter ocorrido de forma estranhamente simples, sem grandes distúrbios significativos, assim como o futuro indefinido e cheio de pontas soltas de alguns personagens que haviam sido cruciais para as conclusões do Comissário.
     Desde a capa – com sua bela sobriedade – até a diagramação simplificada, captou a essência do livro. Nada muito floreado, o que se encaixou perfeitamente. Mesmo com alguns erros mínimos de edição, a tradução foi coesa, assimilando a simplicidade detalhista de Simenon.
Sombras na Place des Vosges traz consigo um ótimo conto investigativo, com um enredo instigante para os amantes do gênero, mas peculiar em alguns pontos, o que encarei de forma positiva. O Realismo presente e o trabalho psicológico brilhantemente analisado pelo personagem central faz com que tenhamos uma perfeita visão da história na qual nos envolvemos. Um romance escrito com maestria, para ser lido da mesma forma.

Primeiro parágrafo: “Eram dez da noite. Os portões do gramado central estavam fechados e a Place des Vosges, deserta, com os rastros luzidios dos carros desenhados no asfalto e o silvo contínuo dos chafarizes, as árvores desfolhadas e o recorte monótono dos telhados idênticos contra o fundo do céu”.
Melhor quote: “Maigret sorriu novamente. Estava num humor esplêndido. Aquela manhã, tinha uma súbita impressão de participar de uma farsa! A vida inteira era uma farsa! A morte de Couchet era uma farsa, em especial seu testamento!” 





3 Comentários

  1. o livro parece mt bom Bianca, adoreii a resenha, tava dificil de achar outra e quero ler

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  2. Adoro conto investigativo, talvez eu dê uma chance porque confesso que dou mais atenção aos 5 estrelas. Beijos ^.^

    Vanessa | http://closetdelivros.blogspot.com/

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  3. Fiquei muito interessada nesse livro por causa dessa resenha.
    Obrigada pela dica!
    SUA ESTANTE
    Gatita&Cia.

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