Livro: Ninfeias Negras
Título Original: Nymphéas Noirs
Editora: Arqueiro
Páginas: 346
ISBN: 978-85-8041-632-9
Sinopse: Giverny é uma cidadezinha mundialmente conhecida, que atrai multidões de turistas todos os anos. Afinal, Claude Monet, um dos maiores nomes do Impressionismo, a imortalizou em seus quadros, com seus jardins, a ponte japonesa e as ninfeias no laguinho. É nesse cenário que um respeitado médico é encontrado morto, e os investigadores encarregados do crime se veem enredados numa trama em que nada é o que parece à primeira vista. Como numa tela impressionista, as pinceladas da narrativa se confundem para enfim, darem forma a uma história envolvente de morte e mistério em que cada personagem é um enigma à parte – principalmente as protagonistas. Uma menina prodígio de 11 anos que sonha ser uma grande pintora. A professora da única escola local, que deseja uma paixão verdadeira e vida nova, mas está presa num casamento sem amor. E, no centro de tudo, uma senhora idosa que observa o mundo do alto de sua janela.

Michel Bussi já escreveu 11 livros, que foram traduzidos em 33 países. Ganhou 15 prêmios literários e foi finalista de outras 9 premiações, tornando-se um dos mais prestigiados autores policiais franceses. Quando não está escrevendo, atua como professor de geografia na Universidade de Rouen e como comentarista político. Dele, a Arqueiro já publicou O Voo da Libélula. Ninfeias Negras teve os direitos vendidos para 14 países.

   Os belos quadros de Claude Monet tiveram grande repercussão ao retratarem os cenários oníricos de Giverny, uma cidadezinha pacata, que até hoje conserva as paisagens que inpiraram os famosos quadros de Monet, especialmente o laguinho de ninfeias, que ele tanto lutou para conservar durante sua estada ali. Monet pintou mais de 270 quadros do laguinho, visto sob diferentes perspectivas – fez isso até o fim de sua vida. Anos depois, uma menina também se inspiraria nele para dar vida à suas próprias obras. Seu nome era Fanette e estava prestes a completar 11 anos. Apesar de ser uma menina pobre que vivia em uma casa simples com sua mãe solteira, ela almejava sair de Giverny e fazer muito sucesso com seus quadros – tanto quanto Monet. Então a oportunidade desponta: abrem-se inscrições para o concurso da Fundação Robinson, que promove jovens pintores. O vencedor ganharia uma viagem a outro país. É a grande chance de Fanette e ela não pretende desperdiçá-la.
   Stéphanie Dupain é a professora da escola municipal de Giverny, onde Fanette estuda, e é uma grande apreciadora da arte – especialmente de Monet, claro. Ela também é uma peça chave para um sombrio acontecimento que passa a rondar a cidadezinha: Jerôme Morval, um dos oftalmologistas mais respeitados de Paris, é encontrado morto perto de um regato, deixando Patricia, sua esposa, viúva e responsável por cuidar de seu patrimônio – extremamente artístico. Acontece que Jerôme era tão fascinado por pintura quanto Stéphanie, e isso fez com que se aproximasse dela para cortejá-la – seria mais uma de suas conquistas extraconjugais – mesmo ela sendo casada. Esses acontecimentos fazem de Stéphanie uma suspeita em potencial, assim como seu ciumento marido, Jacques Dupain.
   Porém, o inspetor responsável por investigar o caso, Laurenç Sérénac, é novo na região, e não se demora a cair nos encantos da jovem professora, que vê nele uma grande oportunidade de realizar seu sonho: se ver livre de um casamento amargo e dos limites de Giverny. O único obstáculo é o mistério que cerca o assassinato e as intuições deturpadas de Laurenç. Enquanto tudo isso acontece, a velha que mora no moinho da cidade, já conhecido como o "moinho da Bruxa", observa o desenrolar dos fatos, e, aos poucos, revela a verdade por trás de tanto suspense.

   Investigação é um dos meus gêneros favoritos, pois envolve suspense, mistérios e uma gama de elementos eletrizantes. Com Ninfeias Negras, nada disso falta. Nunca li nada de Bussi, essa foi minha primeira experiência com um romance policial francês contemporâneo. Mas apesar de ter sido lançado em 2011, fui transportada para os romances do belga Georges Simenon, um dos escritores de gênero investigativo mais renomados do século XX. Não sei se Simenon foi uma inspiração para Bussi, mas se não, posso afirmar que foi uma feliz coincidência. Mas não só de investigação vive Ninfeias Negras, mas também de arte (o livro por si só já é uma arte!), pois trata da vida e obras de Monet – o que veio a acrescentar muito em meu conhecimento sobre cultura visual.
   A narrativa ocorre em terceira pessoa na maior parte do tempo variando seus focos em vários personagens – como Fanette, Laurenç, Stéphanie e James. Mas quando se trata da velha senhora que mora no moinho da bruxa, ela passa a narrar a história e, dessa forma, se torna o cerne da narrativa. A velha conversa com o leitor, questionando-lhe e acabando por guiar seus pensamentos, fazendo com que o leitor, – que, assim como ela, é um observador dos fatos – siga por determinado caminho. A escrita de Bussi é lenta e detalhada. A forma como descreve os cenários e os personagens é quase como se descrevesse uma obra de arte – o que é muito conivente com o tema da história e o lugar onde ela se passa, ou seja, Giverny, a cidadezinha que inspirou um dos maiores pintores que o mundo já viu.


"As pessoas prestam atenção na barriga de fora de uma moça, se espremem para deixar passar o executivo que aperta o passo ou o grupo de jovens que ocupa a calçada inteira. Mas um velho ou uma velha... Eles são invisíveis. Justamente por avançarem tão devagar que chegam a fazer parte do cenário, como uma árvore ou um poste de rua" (p. 42).

   Apesar de lenta, a escrita de Bussi tem fôlego – o que significa que ele sabe contar uma boa história e prender o leitor. Outro detalhe é que ele não abre totalmente o jogo, ou seja, nem adianta tentar dar uma de detetive ao lado de Laurenç,  porque provavelmente todas as suas apostas e crenças estarão erradas e cairão por terra nos últimos capítulos. A grande sacada de Bussi foi ter estabelecido, desde o início, uma linha temporal para o enredo – são apenas 13 dias em que tudo transcorre, sendo cada um desses dias um novo capítulo – fazendo com que o leitor não perceba as "várias variáveis" que a história contém. E, além disso, o autor ainda conseguiu amarrar todas as inúmeras pontas em seu desfecho.
   Cada personagem tinha sua particularidade e sua dose — altíssima — de mistério, especialmente as protagonistas. As três (Fanette, Stéphanie e a velha) tinham muitas coisas em comum, como o desejo de transpor os limites da cidadezinha onde sempre viveram, mas também tinham muitas diferenças – e cada uma delas é desmembrada ao seu tempo. Fanette, em particular, me agradou por mostrar o olhar de uma criança esperta sobre o mundo. Mesmo diante de tantas dificuldades, ela não parava de sonhar, de ter esperanças. Enquanto isso, a velha era o total oposto: sempre pessimista, costumava ver a vida de forma sombria e até assustada. Já a bela e sedutora Stéphanie exalava enigmas e melancolia. Todas extremamente fascinantes.
   Laurenç e seu assistente, Sylvio, são um caso de discussão à parte, já que seguem o indistinto padrão do "investigador e seu ajudante" ou "Sherlock e Watson", como costumo chamar. O primeiro é o velho clichê da personalidade ousada que ouve seus instintos acima de qualquer coisa, acreditando ter o faro certo para desvendar qualquer mistério. Já Sylvio é o precavido, aquele que se preocupa em reunir e organizar provas, acreditando que a impulsividade é o pior método. Um é o perfeito oposto do outro, de forma que era quase inimaginável que um dia eles pudessem se dar bem trabalhando juntos. Infelizmente, na posição de investigador e assistente, eles não passam por evoluções, ou seja, são personagens lineares – apesar de serem fantásticos.

"As pessoas esquecem. Sempre acabam esquecendo. Esquecem a carnificina, a barbárie, e admiram a loucura" (p. 158).

   Bussi introduz em Ninfeias Negras a magia do universo das obras de arte, em especial da vida de Monet, trazendo um arcabouço de pesquisas espetacular. A única crítica negativa que tenho a fazer a respeito da obra se dirige à perda de foco em alguns momentos da narrativa. Claro que delimitar contextos históricos se fez muito importante para a temática abordada – falar sobre Monet e seus quadros, assim como sobre outros artistas –, mas muitos diálogos acabaram se tornando superficiais e monótonos devido a quantidade de informação inserida em muitos deles. Acredito que foi um exagero e que esse artifício poderia ter sido utilizado de forma mais moderada.
   A capa de Ninfeias Negras foi, com certeza, uma das mais bonitas com que me deparei este ano. E talvez seja uma das melhores da minha estante agora. Não é uma das mais bem elaboradas, mas tem uma estética elegante e que retrata perfeitamente bem o mistério que envolve o enredo. A tradução ficou de parabéns, tendo a consciência de manter no original aquilo que era necessário para o entendimento da narrativa.
   Ninfeias Negras, sem dúvidas merece todos os reconhecimentos que recebeu, assim como Bussi, que soube conduzir uma história cheia de originalidade e que se diferenciou de muitos padrões da literatura investigativa americana, sabendo manter as referências francesas. Mergulhar o universo das obras de arte no universo da investigação deu muito certo neste livro e ele entra, sem sombra de dúvida, em minha lista de recomendações para quem sabe apreciar um bom romance policial. 

Primeiro parágrafo: "Num vilarejo, viviam três mulheres".
Melhor quote: "No fundo, as pessoas admiram os loucos".




Deixe um comentário

.