Livro: A Assombração da Casa da Colina
Título Original: The Haunting of Hill House
Autor (a): Shirley Jackson
Editora: Suma
Páginas: 237
ISBN: 978-85-5621-063-1
Sinopse: Vista por mestres como Stephen King e Neil Gaiman como a rainha do terror, Shirley Jackson entrega um livro perturbador sobre a relação entre a loucura e o sobrenatural. Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco.




Shirley Jackson nasceu em São Francisco, Califórnia, em 1916, e faleceu em 1965. Uma das principais autoras americanas do século XX, considerada a Rainha do Terror, influenciou escritores como Stephen King, Nail Gaiman, Sarah Waters, Nigel Kneale e Joane Harris. A assombração da Casa da Colina foi seu penúltimo romance, publicado em 1959, quando Jackson já sofria com graves problemas de saúde causados pelo fumo e pelo uso excessivo de medicamentos. Seu trabalho é aclamado pelo público e pela crítica. Além de A assombração da Casa da Colina, a Suma também publicou Sempre Vivemos no Castelo, o último romance da escritora.

    O doutor em Filosofia, John Montague, sempre sentiu que sua vocação estava ligada ao âmbito das análises de manifestações sobrenaturais. Ao tomar conhecimento da Casa da Colina, uma enorme habitação localizada em um lugar remoto, sobre o topo de uma colina, ele logo se enche de fôlego para analisar o mistério que a cerca. Ao vasculhar a história da casa, o dr. Montague percebe que os antigos moradores nunca passaram mais que cinco dias no lugar, mas não sabem relatar exatamente a experiência que passar alguns dias na casa lhes proporcionou. Para realizar a análise, o doutor convida algumas pessoas, que segundo suas pesquisas, já passaram por experiências de cunho sobrenatural antes, e por isso estariam aptas a fazer observações pertinentes. 
    Entre os escolhidos, estavam Eleanor Vance e Theodora, duas mulheres muito diferentes: Eleanor vivia às custas de sua irmã e do marido dela depois da morte da mãe, da qual cuidou durante muitos anos, o que a fez perder a maior parte de sua juventude. Ressentida com os rumos de sua vida, ela se sente revigorada quando recebe o convite do dr. Montague, pois acredita que finalmente poderá fazer parte de algo relevante e talvez consiga ter amigos. Enquanto isso, Theodora (que não usa seu sobrenome, e gosta de ser chamada apenas de Theo), muito curiosa e extrovertida, divide um apartamento com uma amiga e é uma jovem mulher independente. Theo fica empolgada em embarcar nos mistérios da Casa da Colina e aceita o convite sem pensar duas vezes. 
    Eleanor e Theo foram as únicas que realmente compareceram, além de Luke Sanderson, o herdeiro da Casa da Colina, e considerado por sua tia – a verdadeira dona da casa – um ladrão mentiroso. A condição era que um membro da família estivesse presente durante o tempo em que o dr. Montague e suas acompanhantes ficariam na casa, e por isso Luke foi. Aos poucos, eles vão desvendando os mistérios que rodeiam o casarão, conhecem melhor a história de seus primeiros moradores e criam uma relação regada de amor e ódio – pela casa e entre eles.

    Sempre ouvi falar de Shirley Jackson como um das grandes referências na literatura de terror, além de ser uma influência clara para Stephen King, o mestre do terror psicológico – e apenas lendo A assombração da Casa da Colina, pude observar o porquê de tal influência. Livros de mistério e terror sempre me deixam muito empolgada, e as histórias criadas por King hoje figuram entre minhas favoritas do gênero. Porém, nunca havia lido nada desse estilo escrito por uma mulher, e sentia a necessidade de ter essa carga, afinal, considero também uma forma de representatividade – e não pude ficar mais satisfeita.
    A escrita de Jackson é diferente de tudo que já li. Ela tem uma maneira de envolver o leitor na história que pode soar muito peculiar para quem tem o primeiro contato com a autora através deste livro. Tomando Eleanor sob o foco narrativo principal, Jackson nos põe dentro dos pensamentos da personagem, nos apresentando todos os seus sentimentos, suas impressões acerca da casa e de seus novos amigos, além do medo que sente em determinados momentos. A narrativa em terceira pessoa não interfere nem um pouco nessa imersão.

"– Tudo é pior – ele afirmou, olhando para Eleanor – quando você acha que tem alguma coisa te olhando" (p. 116).

    Livros clássicos como A assombração da Casa da Colina costumam possuir escritas detalhadas, que se prendem às impressões do ambiente, e era isso que eu esperava do livro de Jackson. Portanto, quando notei que essa característica não fazia parte da obra, fiquei surpresa – no sentido bom, pois é arriscado se prender tanto a detalhes quando sua intenção é, na verdade, prender o leitor e não entediá-lo. Por se tratar de um casarão como pano de fundo, esperei por descrições minuciosas sobre os cômodos, os móveis, os quadros, etc., mas ao invés de nos atentar para esses detalhes, a escritora se ateve a revelar os sentimentos e atitudes conflitantes que a Casa da Colina instigava nos personagens – e creio que isso fez toda a diferença no desenrolar do enredo.
    Os personagens geram verdadeiros conflitos na mente de qualquer leitor. Todos têm um lado bom e outro ruim. Eleanor, por ser o grande foco da narrativa, também é a personagem que sentimos mais próxima. Ela é a típica personagem que não se encaixa, que se sente insegura quando tem qualquer tipo de contato com alguém, tem medo do mundo e é melancólica a respeito da vida, mas quando é convidada a fazer parte da equipe do dr. Montague, resolve deixar suas angústias para trás. Através de mentiras e de uma personalidade que não a pertence, Eleanor se esforça para encontrar amigos em cada um deles e se sentir livre pela primeira vez na vida. Theodora é o outro lado da moeda. Apesar de ter engatado rapidamente numa amizade de unha e carne com Eleanor, ambas são muito diferentes. Porém, elas têm algo em comum: são egoístas e – de forma estranha e sutil – disputam por Luke.
    Já o próprio Luke é um personagem simples, que, apesar de suas evoluções ao passar um tempo na Casa da Colina sendo atormentado por seus truques, não tem nada de extraordinário para revelar. O dr. Montague é a voz mais sábia da casa, que guia os demais por caminhos sensatos. Porém, quando tudo começa a desandar, Eleanor é a mais atingida. Todos são atingidos de alguma forma, mas Eleanor é a mais propensa a chamar a atenção da casa por sua personalidade frágil, egoísta, volátil e sonhadora. De certa forma, a casa vê nela um solo fértil para cometer insanidades e essa é a questão que permeia a história: o que faz com que os personagens sejam vítimas da casa não são as assombrações em si, mas o terreno que elas encontram no psicológico de cada um deles.

"– Acho que só temos medo de nós mesmos – o doutor teorizou devagar.
– Não – contrapôs Luke. – De nos vermos com clareza e sem disfarces.
– De saber o que queremos de verdade" (p. 152).

    Apesar de possuir personagens bem construídos e uma trama que nos envolve na história de Eleanor, logo no início fica claro que a protagonista é a própria Casa da Colina – tanto que sua escrita tem letras maiúsculas, como um nome próprio. Eleanor, em minha interpretação, passa a ser apenas um instrumento que tem a missão de revelar o que a casa realmente é e o que faz com a mente de seus moradores. Stephen King considera A assombração da Casa de Colina "a história de casa mal-assombrada mais próxima da perfeição" que já leu. As palavras dele descrevem o que sinto também. A perfeição, acredito, está justamente no fato de ela dar vida à casa, e não atribuir suas assombrações a espíritos, fantasmas, demônios, ou qualquer outra entidade – o mal é a própria casa.
    A capa segue o mesmo estilo da publicação anterior de Shirley Jackson na Suma (Sempre vivemos no castelo). A edição em capa dura, como sempre, é maravilhosa. O design da capa de ambas as obras foram realizadas pela incrível Elisa van Randow, e, como é possível ver, não deixou nem um pouco a desejar, carregando o estilo próprio e cheio de originalidade de Randow. Não posso fazer mais além de parabenizar a tradução de Débora Landsberg, pois foi um trabalho impecável trazer para o português uma escrita tão polida e tão "próxima da perfeição".
    Com A assombração da Casa da Colina, Jackson nos encanta e amedronta. Não é um terror capaz de provocar noites em claro, muito menos de nos fazer ter medo de casas localizadas em topos de colinas por aí – ela cria um novo conceito para o que conhecemos como medo. O desfecho mostra que a obra tem um fim em si mesma e que nossas mentes são as verdadeiras vilãs da história. Há margem para inúmeras interpretações no final, como: a casa era mesmo mal-assombrada ou seus habitantes eram apenas loucos? E para cada pergunta, pode haver inúmeras respostas. Jackson não perde tempo se debruçando sobre explicações, isso demonstra que há total liberdade para o leitor apreciar o bom e velho terror de uma casa mal-assombrada como sua mente permitir.

Primeiro parágrafo: "Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonha. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho".
Melhor quote: "Quando estou com medo, vejo com perfeição o lado lógico, belo, destemido do mundo, vejo cadeiras e mesas e janelas que ficam do mesmo jeito, não são nem um pouco afetadas, e vejo coisas como a textura cuidadosa trançada do tapete, sem nem se mexer. Mas quando estou com medo deixo de existir em relação a essas coisas. Imagino que seja porque as coisas não têm medo".





3 Comentários

  1. King que foi minha primeira e unica experiencia com o terror,estou iniciando nesse gênero e estou sedenta de dicas, o que vejo que me deparei com uma otima, por sinal. Além da capa e do título que parecem algo bem simples até, adorei os comentários feitos, de simples nao tem nada, muito pelo contrario, uma historia que mistura realidade e ficção deixando o leitor louco de medo e curiosidade. Eu já tinha lido comentários sobre esse livro cada novo comentário me animam para seguir pelo caminho do terror.. adoooroooo!!!

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  2. Bianca!
    Nem preciso dizer o quanto gosto de thrillers do tipo que apenas insinuam as atitudes e com descrição das personagens, abordando apenas o aspecto psicológico de cada um. "A casa é fruto daqueles que a frequentam." Colocação bem feita já que é o cerne do enredo,
    Confesso que mesmo sendo uma reedição de um livro tão antigo, não conhecia ainda e já quero. Deve dar 'borboletas' no estômago poder lê-lo.
    Uma ótima semana!
    “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?.” (Mahatma Gandhi)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA AGOSTO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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