Livro: Pax
Título Original: Pax
Editora: Intrínseca
Páginas: 288
ISBN: 978-85-510-0022-9
Sinopse: Peter e sua raposa Pax são inseparáveis desde que ele a resgatou, órfã, ainda filhote. Um dia, o inimaginável acontece: o pai do menino vai servir na guerra, e o obriga a devolver Pax à natureza. Ao chegar à distante casa do avô, onde passará a morar, Peter reconhece que não está onde deveria: seu verdadeiro lugar é ao lado de Pax. Movido por amor, lealdade e culpa, ele parte em uma jornada solitária de quase quinhentos quilômetros para reencontrar sua raposa, apesar da guerra que se aproxima. Enquanto isso, mesmo sem desistir de esperar por seu menino, Pax embarca em suas próprias aventuras e descobertas. Alternando perspectivas para mostrar os caminhos paralelos dos dois personagens centrais, Pax expõe o desenvolvimento do menino em sua tentativa de enfrentar a ferocidade herdada pelo pai, enquanto a raposa, domesticada, segue o caminho contrário, explorando sua natureza selvagem. Um romance atemporal e para todas as idades, que aborda relações familiares, a relação do homem com o meio ambiente e os perigos que carregamos dentro de nós mesmos. Pax emociona o leitor desde a primeira página. Um mundo repleto de sentimentos em que natureza e humanidade se encontram numa história que celebra a lealdade e o amor.

Sara Pennypacker é autora premiada de diversos livros infantis, entre eles a série Clementine. Divide seu tempo entre os estados da Flórida e de Massachusetts, onde, além de escrever, dá palestras em escolas e universidades sobre literatura infantil. Pax é seu primeiro romance publicado no Brasil.


   Quando o garoto Peter era ainda mais novo, ele perdeu a mãe e ficou se perguntando quantas crianças naquela mesma semana teriam acordado e encontrado o mundo alterado por uma perda como aquela. Então, quando encontrou a raposa Pax na floresta, sozinho, órfão, aos dezesseis dias de vida, sendo apenas uma bolinha de pelo cinza-escuro, sem pai nem mãe, que mal abria os olhos, não demorou muito quanto a se decidir sobre acolher ou não o pobre animal. Foi questão de dias para a raposa se tornar o melhor amigo do garoto e vice-versa, desde então eles se tornam inseparáveis, mal sabendo que nem sempre as guerras tendem a respeitar os laços que criamos, sejam eles de amizade, de amor ou de esperança.
   A guerra se aproxima e o pai de Peter é convocado a cumprir com suas obrigações militares, decidindo por enviar o filho para morar com o avô. Certo de que, em virtude da idade e da dificuldade em caminhar, o velho não pode ficar com Pax, o pai do garoto obriga-o a soltar o animal numa estrada que leva a uma fábrica abandonada. Mesmo triste, Peter sabia que não era aconselhável ficar no caminho do pai — que vivia em constante tensão desde que a mãe morrera — e, mesmo a contragosto e com lágrimas nos olhos, abandona o animal indefeso na estrada
   Já na casa do avô, Peter toma ciência de que, não importando as circunstâncias, abandonar Pax não era o certo a fazer. Assim como a raposa, que perdida resolve esperar pelo garoto no lugar onde ele a deixou, Peter acredita que ele e Pax são um só — dois, mas não dois —, e com lágrimas nos olhos e a mente imbuída de frustração, resolve pegar uma mala, colocar o necessário e partir a pé, numa viagem de quase quinhentos quilômetros para resgatar seu animal, enquanto Pax descobre a liberdade e os perigos do mundo selvagem pela primeira vez.

— Criei minha raposa desde que ela era filhote. Minha raposa confiava em mim. Ela não sabe sobreviver lá fora. Não importa se é “só uma raposa”... É assim que meu pai diz, “só uma raposa”, como se não fosse um animal tão bom quanto um cachorro, por exemplo.

   Mergulhei na leitura de Pax depois das inúmeras indicações que recebi de amigos e também após ler diversas resenhas gritantes e positivas que incitavam a leitura desse infanto-juvenil que acabou conquistando até mesmo corações adultos. É a única publicação de Sara Pennypacker no Brasil, então eu nunca tinha nem mesmo ouvido falar na autora, o que não influenciou de forma alguma em minhas expectativas. Apesar de não ser um gênero que eu leio com frequência, o infanto-juvenil sempre me foi agradável por geralmente trazer uma mensagem, algo apelativo, que nos faz refletir sobre nossas atitudes e sobre nossos valores. Já sabendo que Pax era um livro para se ler e depois parar para refletir, ao ler a epigrafe do livro confirmei minhas suspeitas de que se tratava de uma história capaz de arrebatar não somente as crianças, mas a todos nós, seres humanos
   O livro traz uma narração em terceira pessoa — a melhor que já tive contato —, com uma linguagem limpa, fácil, cheia de vida, liberdade e, principalmente, fluida. Tenho o costume de chamar esse tipo de leitura de good vibes, justamente pela capacidade preternatural que ela possue de nos trazer boas vibrações, boas emoções e bastante conteúdo. Os capítulos são intercalados entre a visão do narrador sobre Peter e, depois, sobre Pax, de modo a sempre expressar os pensamentos, sentimentos e, a bem da verdade, conversar com o leitor e dar-lhe espaço para tomar opiniões e se sentir inteiramente dentro da obra. Esse tipo de estrutura nos permite ter uma visão mais ampla, ainda que centralizada, das escolhas, sentimentos e decisões dos dois protagonistas, contribuindo ainda mais para o excelente dinamismo do livro. 
   A escrita da Sara... nossa, é extremamente indescritível. Ela compõe com uma maestria incrível, se apegando a um tipo de formalidade sem floreios, sem excesso de detalhes, com vida e até mesmo sem pedaços de formalidade. A intenção — e isso pode ser observado da primeira palavra ao último ponto final — é tocar o leitor, sensibilizá-lo, e a linguagem conversa muito bem com isso. Um ponto extremamente forte no livro, que sem dúvidas acrescentou muito, foi a escrita da autora. Como eu digo, uma coisa é você ter uma boa ideia para um livro, outra extremamente diferente é você saber desenvolver e dar assas a isso, e Sara soube fomentar muito bem sua ideia e seus anseios enquanto escritora e poeta — Pax é quase uma poesia, mesmo escrito em prosa!

Peter volta e meia pensava que as responsabilidades da vida deveriam ter cercas assim, altas e claras.

   Quando finalizamos o livro, não somos os mesmos de quando o iniciamos. Isso é o que mais chama atenção em Pax — ele é capaz de modificar o leitor, de, como eu disse, sensibilizá-lo. Todo o conteúdo da trama — guerra, amizade, amor — deixa base para muitas reflexões e, conforme vamos lendo, é impossível não as fazer. O mais interessante é que a autora faz a reflexões fluírem sem que seja necessário jogá-las em nossa cara, esfregar o óbvio em nossa testa. Não, não é assim que acontece. Por mais que saibamos que existem muitas intenções por trás da obra, tudo acontece de uma forma extremamente despretensiosa. A autora estudou bastante sobre o comportamento das raposas, para o descrever com verossimilhança, e contou com a ajuda de muitas pessoas para compor a narrativa que mostra muito de si mesma e o que pensa. 
   A composição dos personagens também chama bastante atenção, por ser simples, comum e muito objetiva. Justamente por ser um infanto-juvenil, não estraremos em contato com dezenas de personagens, situações e dramas. Não, toda a história é extremamente focada em Peter, em sua jornada em busca de sua raposa, e Pax, em sua jornada de descobertas no mundo selvagem. Peter é um garoto extremamente inteligente, dedicado e apaixonado por seu animal — isso me comoveu bastante e muito me fez lembrar de meu amor para com meus bichinhos. É inspirador a forma como o garoto decidiu enfrentar tudo para ir atrás de Pax! No caminho, claro, ele encontra inúmeras desventuras que o impossibilitam de continuar sua jornada, é então que surge a terceira protagonista — digo isso porque ela é realmente isso, uma protagonista! 
   Vola, apesar de muitos críticos literários terem se esquecido dela, é a peça fundamental de Pax — muito mais do que seus dois protagonistas principais. A fazendeira, abatida por seu passado na guerra, é a responsável por garantir que Peter consiga alcançar seus objetivos e também pela maioria das reflexões que temos durante a leitura. O período de várias semanas com que Peter fica com Vola é fundamental para o que acontece depois — para o que os dois conseguem aprender um com o outro. Essa convivência é fundamental para se perceber a evolução dos personagens. Todos eles evoluem, até mesmo Pax, que está na natureza selvagem aprendendo tudo pela primeira vez, descobrindo a verdade sobre si mesmo. 

— Tenho mais do que preciso — disse ela ao se sentar. — Aqui tenho paz.
— Por causa do silêncio?
— Não. Porque estou exatamente onde deveria estar e fazendo exatamente o que deveria fazer. Isso é paz.

   Sabemos que não existem livros que sejam literalmente perfeitos, mas, caso existisse, Pax estaria bem próximo dessa rotulação. A bem da verdade, acredito que seja quase impossível alguém não se sentir satisfeito com a leitura, afinal, é um livro extremamente grandioso, em todos os sentidos. Não há nada que incomode o bastante e, em virtude de ser extremamente centralizado, nada é deixado vago, solto no ar, como dizem. A trama é muito boa, instigante, com personagens carregados de profundidade e emoção... não é tudo o que mais buscamos em nossas leituras? 
   Tão bem-feita quanto o livro ficou a edição! A Editora Intrínseca, sem dúvidas, foi a melhor em 2016, sempre agradando seus leitores e fazendo com que nos sentíssemos extremamente felizes em ganhar tão belas edições — assim como os norte-americanos. A capa (dura) de Pax, mantida a original, chama muita a atenção, principalmente das crianças — e não só delas, claro! A diagramação conta com fontes agradáveis, ilustrações belíssimas de Jon Klassen (ele é incrível!), papel pólen soft (amarelinho) e é livre de erros gramaticais. É a materialização da perfeição, o sonho de qualquer leitor! Parabéns, Intrínseca! 
   Por fim, ressalto que os fãs de Extraordinário, principalmente, vão se sentir extremamente felizes com a leitura de Pax, mas também é importante deixar claro que crianças, adolescentes e adultos devem, pelo menos uma vez na vida, lidar com uma história como essa, para refletir não somente sobre suas atitudes e a dos outros, mas sobre a vida, o mundo, o amor e as amizades. Pax deveria ser leitura obrigatória nas escolas, justamente por trazer tantos ensinamentos acerca da vida! Eu recomendo! 

 

Primeiro Parágrafo do Livro: “A raposa sentiu o carro reduzir a velocidade antes do menino, pois sentia tudo primeiro. ”
Melhor Quote: “Por pior que fiquem as coisas, sempre podemos nos renovar. ”


Um Comentário

  1. Adorei as fotos, do mesmo modo que gostei da resenha.
    Muito bem escrita. Parabéns!

    Bjos.

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