Livro: O Livro de Moriarty
Título Original: The Book of Moriarty
Autor: Arthur Conan Doyle
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 414
ISBN: 978-85-8285-004-2
Sinopse: "O Napoleão do Crime". É assim que Arthur Conan Doyle define o professor James Moriarty, arqui-inimigo de Sherlock Holmes e um dos grandes vilões da literatura universal. Não há crime em Londres, do mais banal ao mais terrível dos assassinatos, do qual ele não tome parte. No entanto, na obra de Doyle, Moriarty aparece como uma sombra: raramente o protagonista de uma história, sempre atrás das cortinas, em breve menções alusões. Este volume reúne todas as histórias de Sherlock Holmes em que o professor dá as caras. São seis contos e um romance que mostram a construção deste que acabaria se tornando um modelo de vilão e o personagem mais emblemático de Doyle depois de seu rival Sherlock Holmes e de dr. Watson. Nas célebres palavras do detetive, "o jogo começou".

Arthur Conan Doyle nasceu em Edimburgo, Escócia, em 1859. Formou-se médico na Universidade de Edimburgo, onde um de seus professores, dr. Joseph Bell, inspirou seu mais famoso personagem, Sherlock Holmes, por sua incrível capacidade dedutiva. Sua primeira história foi publicada em 1879 sob pseudônimo e se chamada O Mistério de Sassassa Valley. Doyle acabou abandonando a carreira de médico e se dedicou à escrita, tornando-se famoso por suas histórias de investigação. O escritor recebeu o título de nobreza do Império Britânico em 1902 e faleceu em 1930.


    Sherlock Holmes é simplesmente o detetive mais conhecido da literatura mundial, sendo a fonte de inspiração para muitos romances policiais contemporâneos. Ele, ao lado de seu fiel amigo e parceiro de investigação, dr. Watson, vive grandes aventuras e enfrenta os maiores perigos da sociedade londrina. Mas há um perigo maior que todos os outros: James Moriarty, um célebre professor matemático que está por trás de todos os crimes enfrentados por Watson e Holmes durante todo o tempo em que eles atuam nessa área. Porém, além de perigoso, Moriarty está sempre oculto por muitas sombras e se torna um desafio pessoal para Holmes.
   Apesar de estar envolvido em uma teia de crimes, Moriarty é como um objeto de admiração particular para Holmes, pois, segundo o próprio detetive, ele tem um gênio brilhante — só assim para conseguir se livrar da justiça por tantos anos. As investigações policiais nunca chegam até ele e sempre que Holmes leva o assunto "Moriarty" à polícia de Londres, todos acham que essa ligação dos crimes com o renomado professor não passa de uma lenda criada pelo cérebro de Holmes. Mas o genial detetive sabe, em seu interior, que sua intuição não aponta nada mais que a verdade.
    A coletânea de contos mostra todas as histórias em que Moriarty aparece ou é citado — sempre de forma nebulosa, pois os fatos são sempre mostrados sob o relato de Watson. O livro já inicia com O Problema Final, que mostra a morte dos dois grandes inimigos. Logo em seguida, há mais cinco contos pós-morte de Holmes (na verdade, ele nunca morreu, apenas forjou a própria morte) em que ele resolve casos e se lamenta por não ter mais gênios à sua altura, como o era Moriarty, para enfrentar. Por fim, a coletânea inclui uma história que se divide em duas partes — O Vale do Medo.


    Sempre tive curiosidade de ler as histórias de Sherlock Holmes, escritas por Arthur Conan Doyle. As únicas histórias que li sobre o detetive vieram de outros escritores, como Neil Gaiman (em seu livro Alerta de Risco, já resenhado aqui, há um conto que mostra a "aposentadoria" de Holmes). Ler sob a autoria de Doyle traz uma perspectiva totalmente diferente ao personagem e um entendimento muito mais abrangente. Os filmes e a série sobre o detetive mais famoso do mundo têm suas próprias peculiaridades e nunca são totalmente fiéis às histórias originais. Por isso, ter lido O Livro de Moriarty trouxe um novo sabor, cheio de originalidade.
   O narrador oficial das histórias de Holmes é seu leal amigo, dr. Watson, que é como a personificação de Doyle — um médico dedicado à escrita. Ele mantém uma narrativa lenta e detalhada, que parece ser mais em terceira pessoa que em primeira, tendo em vista que o narrador é um personagem secundário, não o protagonista. Dessa forma, os focos são voltados para Holmes com a visão de Watson. Os diálogos costumam se arrastar, constituindo falas densas.


"Meu bom e velho Watson! Você é o único ponto fixo em uma era de constante mudança. Sim, meu amigo, o vento leste se aproxima, e será o mais forte vendaval a jamais varrer a Inglaterra. Será uma tempestade fria e implacável, Watson, e muitos de nós devem tombar antes da última lufada. Mas, por mais tormentoso que seja, esse é o vento de Deus; e, quando a tormenta passar, a luz do sol brilhará sobre uma terra melhor, mais pira e mais forte" (p. 163).
 
   As teorias da época acerca da ciência são muito trabalhadas nos contos, e além disso, Doyle claramente usa seu conhecimento em medicina para compôr alguns elementos da trama. Outro detalhe que me chamou muita atenção foi o pouco rodeio para resolver casos. Eles sempre são profundos e recheados por contextos estudados com afinco por Holmes, mas sua resolução não envolve diversos caminhos e sentidos — tudo quase sempre aponta para rotas claras na cabeça de Holmes. 
     Deve-se ter em mente que nem sempre Watson sabia o que se passava na cabeça do amigo, e este procurava manter muitas coisas em segredo. Tudo isso faz de Holmes um mistério, tanto quanto os casos que ele resolvia. Holmes sempre parecia ser retratado, em outras mídias, aquele tipo de intelectual que tinha qualidades tão altas que chegavam a irritar (ao mesmo tempo em que isso era apaixonante). Mas vendo-o sob a narrativa original, pude notar que ele era um homem comum, só que esperto e com um talento nato para dedução — assim como alguém que tem o dom de cantar muito bem ou de desenhar perfeitamente. Ele segue os próprios instintos, mas sempre se baseando em fatos e análises profundas, tendo a investigação não só como função profissional, mas como paixão - e dedicou a isso toda sua vida. Porém, ele não é infalível e esse retrato dele não condiz com a real essência do personagem. Holmes também admite que erra e que pode esquecer de um ou outro detalhe, porque, apesar de ser incrível, ainda é humano.
    Já Watson parece se perder em meio à própria narrativa e não se mostra como um personagem muito ativo nas aventuras que tem como Holmes. Ele acaba sendo apenas um útil pano de fundo que registra tudo para a posteridade seguindo as ordens do amigo. É o maior observador de todos, e a relação que ele estabelece com o leitor é difusa — ora próxima, visto que ele passa a conversar de forma íntima, falando sobre suas impressões e perspectivas; ora distante, pois não revela muito de si mesmo (até hoje nem se tem certeza se sua mulher realmente morreu, e se sim, como isso ocorreu) e às vezes esquece-se que ele é o narrador.


      A iniciativa de ter contos reunidos dessa forma, centrados no vilão de Holmes, é uma ótima forma de tratar esse personagem que nunca era completamente imposto nas histórias de Sherlock. Mostrando ambos, o herói e o vilão, no mesmo nível, estabeleceu um paralelo e ao mesmo tempo um paradoxo espetaculares: Moriarty tem a mesma astúcia para fazer o mal como a que Holmes tem para fazer o bem. Quando se põe as coisas nessa perspectiva, é quase impossível não se encantar com O Livro de Moriarty.
    Esta edição tem o selo da Penguin Companhia, a associação da Editora Cia das Letras com a Penguin Group (Estados Unidos), e está inserido na série Clássicos. A capa, que lembra uma pintura a óleo, está maravilhosa. A tradução e introdução foram feitas por José Francisco Botelho, jornalista, escritor e mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de já ter traduzido outros livros para o selo da Cia é considerado referência na área. Mas o melhor de tudo foi a inserção de notas de rodapé, que deixaram a leitura mais compreensível e dinâmica.
    O Livro de Moriarty é um prato cheio para os fãs do ilustríssimo detetive Sherlock Holmes, principalmente para aqueles que amam os embates que o mocinho tem com o vilão mais enigmático de suas histórias. Os contos nunca perdem o ritmo e são escritos de forma brilhante — feitos para surpreender e amarrar o leitor. Além de tudo, é Arthur Conan Doyle é uma das melhores referências que se pode ter quando de fala de literatura policial e serve para percebermos os vestígios de sua influência nos autores da atualidade.

Primeiro Parágrafo: "Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o responsável por metade das ações malignas e quase todos os delitos ocultos nesta grande cidade. É um gênio, um filósofo, um pensador abstrato, dotado de um cérebro de primeiro grandeza".
Melhor Quote: "Há certas árvores, Watson, que crescem até determinada altura e então desenvolvem alguma desagradável e repentina excentricidade. O mesmo ocorre frequentemente em humanos. Tenho a teoria de que cada indivíduo representa, em seu desenvolvimento pessoal, a trajetória inteira de seus ancestrais; esses súbitos desvios para o bem ou para o mal se devem a alguma poderosa influência advinda de sua estirpe. O indivíduo se torna, por assim dizer, a epítome de sua história familiar."



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