Livro: A Zona Morta
Título Original: The Dead Zone 
Autor(a): Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 480
ISBN: 978-85-5651-033-4
Sinopse: Depois de quatro anos e meio, John Smith acorda de um coma causado por um acidente de carro. E, após tanto tempo, sua volta à consciência é acompanhada de poderes inexplicáveis. O passado, o presente e o futuro — nada está fora de alcance. O resto do mundo parece considerar seus poderes um dom, mas John está cada vez mais convencido de que é uma maldição. Basta um toque, e ele descobre mais do que jamais quis sobre as pessoas. Ele não desejou isso e, no entanto, não pode se livrar das visões. Então o que fazer quando, ao apertar a mão de um político em início de carreira, John prevê o que parece ser o fim do mundo?

Stephen King é autor de mais de cinquenta best-sellers no mundo. Os mais recentes incluem Mr. Mercedes (vencedor do Edgar Award de melhor romance, em 2015), Achados e PerdidosÚltimo TurnoRevival, Escuridão Total Sem Estrelas, Doutor Sono, Novembro de 63 e Sob a redoma (que foi adaptada como uma série pela CBS). Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundatione, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos. A zona Morta, lançada em 1979 nos Estados Unidos e em 1981 no Brasil, ganhou uma adaptação cinematográfica em 1983 com direção de David Cronenberg.

   John Smith — não pode haver nome considerado mais comum nos Estados Unidos. Porém, o protagonista dessa obra de Stephen King está bem longe de ser normal. Quando tinha apenas seis anos, John almejava ser um grande patinador, e, tentando imitar os meninos mais velhos, que patinavam com graça e elegância, ele acabou tropeçando durante uma manobra e sofreu uma forte pancada na cabeça que o deixou desacordado e delirando por um tempo. De volta em casa, o pequeno Johnny escondeu o ocorrido de seus pais, com medo de que eles proibissem a patinação. O tempo passou e as lembranças desse dia também.
   Johnny se tornou professor do ensino fundamental de uma escola em Cleaves Mills. Ele era o tipo engraçado que se dá bem com todos, que consegue controlar a turma mais bagunceira da escola e sempre diz a coisa certa com todo seu traquejo social. Além disso, ele estava desenvolvendo um relacionamento amoroso com sua colega de trabalho, a bela Sarah Bracknell — parecia ser o começo de um bom namoro: a professora chata e o professor brincalhão. Sarah não tinha boas experiências com namoros, mas em Johnny encontrou alguém com quem podia compartilhar tudo e ter um romance saudável. Foi assim até a noite em que eles resolveram ir à feira regional para comemorar o Halloween.
   A feira estava divertida. Sarah e Johnny foram a vários brinquedos e comeram muitas porcarias saborosas. Sarah decidira passar a noite na casa de Johnny e seria a primeira vez dos dois juntos. Mas antes de partir, Johnny resolveu jogar a Roda da Fortuna em uma das barracas. Desse ponto em diante as coisas começaram a ficar estranhas. Johnny não errou em nenhuma das apostas que fez. Uma multidão se reuniu em torno dele de tão assombrosa que era sua suposta sorte. Por um acaso do destino, Sarah começou a passar mal. Johnny se apressou em levá-la para casa e a noite que iam passar juntos  no apartamento dele foi cancelada. Na volta, Johnny pegou um táxi. Ao fazer uma curva, o carro bateu e Johnny, que foi lançado longe na estrada, ficou seriamente ferido e entrou em estado de coma — permaneceu assim por quatro longos anos.
    Muita coisa aconteceu durante o tempo Johnny esteve desacordado. Um serial killer estava à solta, os Estados Unidos ganharam um novo presidente e Greg Stillson, dono de uma agência de seguros, sentiu-se confiante para lançar sua carreira política em New Hampshire. Quando Johnny finalmente acordou, sua mãe havia se tornado uma fanática religiosa, Sarah se casara e tivera um filho, e ele adquirira poderes sobrenaturais. Bastava tocar em alguém para descobrir particularidades da vida daquela pessoa. Para sua mãe, Vera, aquele só podia ser um dom dado por Deus. Mas para Johnny, só podia ser uma maldição. Boa parte de sua vida foi desperdiçada numa cama de hospital e agora que estava de volta, de repente se tornou uma personalidade paranormal. Com o passar do tempo, criou um hobby: apertar a mão de políticos para saber o que viria pela frente em suas carreiras e o que fariam se chegassem ao poder. Foi assim que Johnny chegou à Greg Stillson. Num aperto de mão, ele viu o poder que aquele homem teria e as terríveis consequências que traria ao mundo. De alguma forma Johnny precisava impedir aquilo.

— Às vezes eu acho que nada é justo — disse ele. — A vida é dura. Às vezes, você simplesmente precisa se contentar com o pouco que tem e tentar viver com isso" (p. 168).

    Os livros de King sempre me conquistam facilmente. Desde suas tramas até sua forma de escrever me encantam, por isso crio altas expectativas quando começo a ler seus livros. Desta vez não foi diferente. Porém, cada livro é um mundinho particular e, mesmo tendo reconhecido cada elemento como sendo próprio de uma obra de Stephen King, não pude deixar de me surpreender. Para começar, o gênero do livro não fica muito claro. É óbvio se que trata de um suspense — a especialidade do autor, afinal —, mas não há só isso, e sim, uma grande mistura de diversos gêneros. Pode-se classificar A zona morta como um drama ou ficção científica sem problemas, e o livro funciona muito bem quando se encaixa em todos eles.
   O narrador é em terceira pessoa e, mesmo tendo como foco principal o protagonista, Johnny, ele também percorre aleatoriamente os outros personagens: Sarah, Herb — o pai de Johnny —, Greg e até o serial killer que assombra a cidade. Cada capítulo é dividido em sub-capítulos. São três partes ao todo: o início, com a Roda da Fortuna e o enfrentamento de Johnny com o caso do serial killer — ou seja, o momento em que o personagem ainda está descobrindo a dimensão de seus poderes. Logo depois, o livro segue para o confronto com Greg, e, por fim, para a conclusão inesperada (ou talvez seja previsível para alguns) da história. A escrita de King, como sempre, tem um ótimo ritmo e descrições que variam entre sensibilidade e frieza, dependendo do momento na cena.

    A questão política é bastante forte no enredo. O período retratado é os anos 1970, então, a partir de 1974, temos Gerald Ford como presidente dos Estados Unidos numa época em que o escândalo Watergate estava bem presente no clima americano. Não poderia ter um momento político melhor (principalmente considerando que o lançamento do livro ocorreu em 1979). Ford sofreu diversas tentativas de assassinato e suas decisões para o futuro do país foram polêmicas. De certa forma, King deixa transparecer suas convicções políticas através dos personagens. A guerra no Vietnã, por exemplo, também é um tema levemente debatido em alguns momentos, e o posicionamento central é anti-guerra — o pensamento comum entre liberais.

"Afinal, que diabo há de errado com esses garotos? Bem, eles tinham comido um cachorro-quente estragado chamado Vietnã e tiveram uma intoxicação. Foi um cara chamado Lyndon Johnson que vendera o cachorro-quente. Então, procuraram o outro cara e disseram: 'Por Deus, cara, estamos muito mal'. E este cara, cujo nome era Nixon, disse: 'Sei como dar um jeito nisso. É só comer mais alguns'. Era isso que havia de errado com a juventude americana" (p. 63).

    O protagonista faz parte daquele grupo de personagens que conquistam o leitor desde a primeira vez em que são citados. Há uma ótima referência no início, que descreve Johnny: ele tem dois lados — Jekyll e Hyde, os personagens do livro O estranho caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde, escrito por Robert L. Stevenson. São duas personalidades habitando o mesmo corpo. Mas nada tão extremo como no original de Robert. O que ocorre é que, quando Johnny vislumbra a história de alguém (ou de algum objeto) apenas pelo toque, é como se ele se transformasse em outra pessoa. Entretanto, em nenhum momento ele deixa de lado sua personalidade ou seus valores para se tornar outra pessoa. Johnny busca ser racional em cada ato e, mesmo detendo um poder que não entende como surgiu, não alimenta pensamentos subjetivos, nem foge da realidade. Sua relação com a paranormalidade é um misto de amor e ódio: ao mesmo tempo em que ele confia em seus poderes e tenta usá-los da melhor forma possível, eles também fazem com que Johnny sinta-se mal, como uma aberração.
    Os personagens secundários são igualmente bem construídos. Vera, a mãe de Johnny é extremamente religiosa, e após o acidente do filho, torna-se ainda mais, embarcando em diversas crenças surreais sobre a volta de Jesus Cristo e o Juízo Final — e beirando à loucura. O pai de Johnny, Herb, por sua vez, é quase um retrato do filho: ambos são racionais e agem pensando sempre nas consequências de seus atos. Greg, seu antagonista, é o típico vilão que já nasce pronto para ser odiado, diferente do serial killer, que tem um passado perturbador e não desperta apenas raiva, mas também pena. Infelizmente, senti falta de um melhor desenvolvimento da Sarah, o interesse amoroso do protagonista. Ela e Johnny têm uma boa interação, mas a personagem individualmente parece perdida, como se vivesse num mundo irreal e os seus próprios interesses ficam confusos durante toda a trama. 

"Isso não presta Sarah... Continua cheirando aquela cocaína terrível?" (p. 479)

    O enredo caminha para um clímax que só ocorre, efetivamente, perto do final. Isso faz com que toda a narrativa seja voltada para o que acontece no futuro, como alguém contando uma história que já sabe como termina, então são comuns intervenções do tipo "Mais tarde, ele se lembraria disso com frequência" ou "Sarah se lembraria daquele momento quando...". Porém, quando o conflito em si enfim chega, é decepcionante perceber que tudo o que aconteceu antes — o que encaminhou o protagonista até ali — foi muito mais interessante que o próprio confronto tão esperado. Foi quase como um propaganda enganosa e isso me deixou chateada — no entanto, não menos satisfeita com o desfecho.
    Esta é a primeira edição de A zona morta publicada pela Suma de Letras. A obra já havia sido publicada no Brasil por outras editoras em 1981. Todas passaram por muitas versões de capa, mas esta versão é mais bonita que vi até então. É uma capa sóbria que segue o modelo de outras publicações de King pela Suma (como O bazar dos sonhos ruins e O iluminado) e ilustra a Roda da Fortuna, um elemento importantíssimo para o desenvolvimento da história. Não encontrei erros de revisão e tradução.
    A zona morta é mais um clássico incrível do mestre dos thrillers. Apesar da quantidade de páginas, tem uma leitura rápida e cheia de tensão, onde o leitor mal pode esperar para chegar ao final e, quando chega, se pergunta por que leu tão rápido — sim, é mais um desses casos. Além disso, é uma história que levanta muitas questões políticas relevantes e também debate valores morais ("Se você tivesse uma máquina do tempo, iria para 1934 e mataria Hitler?"). É muito bom mergulhar no personagem do Johnny, se pôr no lugar dele e entender suas motivações, seus sofrimentos. Mais uma vez King foi capaz de me deixar boquiaberta e suando frio por me preocupar com o protagonista como se ele fosse real (e não é, afinal?). Este com certeza foi um dos melhores que já li do autor. 

Primeiro parágrafo: "Na época de sua formatura na universidade, John Smith já tinha se esquecido completamente da pancada que levara na neve, muitos anos antes, naquele dia de janeiro em 1953. Na verdade já era difícil se lembrar daquilo quando terminou o primário. Seus pais nunca ficaram sabendo de nada".
Melhor quote: "Bem, todos nós fazemos o que pudemos e isso tem de ser bom o bastante... e se não é bom o bastante, temos de continuar fazendo".



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