Livro: U'Yara, Rainha Amazona
Autor (a): Margarida Patriota
Editora: Saraiva
Páginas: 141
ISBN: 9788502225138

Sinopse: Lugar de mulher é na... Tribo Og. Isso mesmo! Porque lá os homens servem apenas para serviços como varrer, limpar e catar piolhos. É nesse lugar que nasce U’Yara, uma garota destemida cheia de ideias pioneiras e boas intenções que, para se tornar rainha, vai ter de engolir muito sapo – ou outro animal qualquer lá da Amazônia.Haja ternura para lidar com os desmandos de Murumu’Xaua, com crenças imutáveis e ultrapassadas e planos terríveis para tirar-lhe o direito ao trono.U’Yara terá de aprender a lidar com o querer de um povo, a mudar tradições arraigadas demais em pensamentos acomodados e, principalmente, a equalizar diferenças promovendo a igualdade, porque, para isso, vale a pena ser a rainha amazona.

      U’Yara, Rainha Amazona foi escrito por Margarida Patriota, autora de ensaios, cantos, romances, e dirigente do programa Autores e Livros da Rádio Senado. Publicado pela editora Saraiva em 2015, foi vencedor do prêmio Jabuti.
     A princesa U’Yara finalmente nasceu na tribo amazônica Og, uma comunidade onde somente mulheres podem governar, lutar, caçar e manter postos importantes, enquanto os homens ficam encarregados de varrer o chão e tarefas mais compatíveis com sua fragilidade. A tribo acreditava no poder das mulheres por razão da natureza ser obras da “Fauna” e “Flora” e por terem o dom de gerar novas vidas, permitindo o descaso e a exclusão dos membros masculinos. 
     Por sua mãe ter morrido durante seu parto, o pai de U’Yara teve a obrigação de se exilar da tribo — segundo as tradições impostas — e entrega U’Yara aos cuidados da sua terrível tia, Murumu’Xaua, que arquiteta planos para usurpar seu trono, cria tarefas difíceis para prejudicar a sobrinha, além de manter crenças ultrapassadas e preconceitos. E, apesar do sofrimento que lhe era infligido, U’Yara gostava da companhia de seu amigo e de aproveitar a natureza.
      Mas, diferente da ideia que a tribo transmitia, U’Yara achava a presença de seu pai importante e essencial, e sentia muito pela sua ausência. Cansada de enxergar a desigualdade na tribo Og, a princesa chega a conclusão que a tradição deveria ser quebrada para o bem de todos, e a igualdade de gêneros perante os direitos, estabelecido.


     Interessei-me por U'Yara, Rainha Amazona assim que li sua sinopse. Parecia mais um "daqueles livros" que são destinados ao público infanto-juvenil, que aparentam serem inofensíveis e simples, mas que carregam mais valores que muitos outros livros adultos. E eu não estava errada.
     Adorei ter contato com a narração de Margarida Patriota — que, aliás, eu não conhecia e acabei virando fã. Trata-se de uma narração em terceira pessoa, extremamente diferente e peculiar, muito detalhada e focada em minucias que a maioria dos escritores passam por cima. Entretanto, apesar da narrativa ter sido um ponto fortíssimo nessa trama, achei-a muito densa. O livro apresenta somente 144 páginas, mas demorei para lê-lo inteiro por causa de sua linguagem — que acredito ser pesada para crianças e adolescentes. É claro que é um prato cheio para enriquecer o vocabulário dos pequeninos, contudo, percebi que U'Yara, Rainha Amazona traria menos envolvência e incentivaria pouco interesse dos jovens por esse quesito. 
    O enredo traz inúmeros pontos a serem observados. Margarida nos presenteou com reflexões sobre assuntos importantíssimos como a natureza, por exemplo. Durante toda a leitura, observei a conexão dos personagens e da própria criadora desse universo com a natureza, a floresta, a essência vital. O respeito e a compreensão dos seres humanos perante a natureza foi um item bem desenvolvido. 
      Não obstante, temos o tema de "desigualdade de gênero" exposto de forma criativa, com o intuito de sensibilizar e promover a auto-critica. Achei genial Patriota ter invertido as funções do gênero e o modo como cada um é tratado. Desse modo, fica muito mais fácil para enxergar a desigualdade e o quanto ela é violenta e opressora. Parece que quando discutimos sobre a violência contra mulher, sua falsa fragilização, a "desimportancia" que recebe e a falta de direitos, fica difícil convencer as pessoas de que a desigualdade de gêneros é assustadoramente cruel e letal, pois foi naturalizada e ocorre há milênios, sem que muitos ergam suas vozes contra. Agora, quando se invertem os papéis, fica muito mais claro o quanto esse assunto é atual e precisa ser discutido.
      Mais importante ainda é perceber que a autora escolheu sensibilizar as crianças e jovens sobre essa temática, o que faz de U'Yara uma leitura fundamental, ainda mais no mercado editorial atual, que vem publicado inúmeros livros preconceituosos e sexistas. Além de ser uma história bonita, traz conteúdo e contribuições para sociedade.

     Outro ponto de muito valor no livro foram as ilustrações, que me chamaram atenção. Juliana Bollini é argentina, e encanou bem o cenário amazônico. Achei suas imagens diferentes e ideias para complementar a obra e dar um "ar" mais infantil.
"Consola-se pensando que acima do mormaço existe um azul limpo como a felicidade"

      Um problema que encontrei foram os nomes dos personagens, que eram tão distintos e diferentes da nossa língua que não tive dificuldade de lê-los e lembrar deles. É obvio que isso não chega a ser um ponto negativo, pois trouxe realidade e profundidade para a trama. Parecia que Patriota realmente estava contando uma história de uma princesa real de uma tribo existente, com muitos detalhes, tradições e uma cultura arquitetada. 
      A Editora Saraiva está de parabéns por toda publicação. O designe, a capa, e a diagramação foram ótimos. Somente a fonte da letra acabou sendo muito pequena e as páginas brancas atrapalharam um pouco a leitura.
     Indico a leitura a todos os tipos de públicos. U'Yara fala sobre coragem, fidelidade, resistência e respeito. É um livro ideal para quem procura obras levemente críticas, narrativas, envolventes e que tragam pontos de vista diferentes sobre a sociedade.

Primeiro Parágrafo: "Aaaaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!! O grito perfura o nevoeiro, assim como a flecha fende o ar. Racha  o céu limpo, onde desbloqueado vagueia. Seguem gemidos dolorosos, insofridos. Um soluço de araponga. Um chilreio de inhambu."
Melhor Quote: "Flora e Fauna não só lhes distribuem as frutas e as caças de que necessitam, como decidem tudo o quanto lhe diz respeito."




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