Livro: Uma história de solidão
Título original: A history of loneliness
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 412
ISBN: 978-85-359-2672-9
Sinopse: Odran e Tom são amigos de longa data: se conheceram no seminário e foram ordenados padres na mesma época. Em uma Irlanda católica, os dois tomam rumos diferentes, mas se reencontram adultos, quando não têm mais nada em comum, exceto a profissão e as lembranças que permaneceram com o tempo. Ao narrar a história desses dois personagens, John Boyne traça o panorama de uma sociedade sufocada pelos ditames do catolicismo e do regime doutrinário das escolas, desvelando com muita habilidade o segredo mais bem guardado da Igreja.

  O irlandês John Boyne ficou conhecido mundialmente pela obra "O menino do pijama listrado", que o fez vencer o Irish Books Awards e depois recebeu uma adaptação para o cinema. É autor de vários outros romances — grande parte publicados no Brasil pela Companhia das Letras — e artigos de jornal. Conhecido pelas suas obras bem trabalhadas e ornamentadas, traz à luz um tema polêmico e impecavelmente produzido em suas mais recente publicação: Uma história de solidão.
    Odran Yates, nosso protagonista, teve sua vida alardeada pela vontade de terceiros pairando sobre suas decisões. Após uma terrível tragédia em seu meio familiar, as coisas mudaram da água para o vinho. Viveu o resto de sua infância ouvindo de sua mãe, que se tornou fervorosamente católica, que ele tinha vocação para ser padre. Convencido disso, sem sequer questionar, entrou para o seminário aos dezessete anos, deixando uma satisfeita mãe e uma irmã rebelde para trás.
    No seminário, Odran descobre que o sacerdócio é perfeito para ele. Começa a se adaptar à nova vida sem problemas. Mas o mesmo não ocorre com seu colega de quarto, que acaba se tornando seu melhor amigo — Tom Cardle: um rapaz que vive irritado, infeliz consigo mesmo e com o rumo que sua vida tomou, e que só está no seminário pela vontade (e brutalidade) de seu pai. Mesmo com tantas diferenças, uma relação duradoura se forma entre ambos. Odran sai do seminário para servir em Roma — literalmente o café da manhã e da noite para o Papa —, enquanto Tom é enviado para a vivência pastoral, mudando de paróquia em paróquia em pouquíssimos espaços de tempo.
    Após muitos anos, depois de ter saído da Itália, Odran retorna a sua amada Irlanda para ensinar inglês em Terenure College, o seminário onde se formou. Quando já havia se acostumado com o conforto que tinha por lá, ele é obrigado a sofrer uma mudança brusca: terá que pastorear na antiga paróquia de seu amigo Tom. Depois de substituí-lo. Odran nunca mais ouve falar dele. Então descobre, ao se envolver numa teia de intrigas e mistérios, que seu país fora contaminado pela Igreja da qual ele próprio faz parte. E se pergunta se tudo o que aquela sociedade passa é também culpa dele.


    O primeiro e único contato que tive com John Boyne foi através de "O menino do pijama listrado", como tantas outras pessoas. Porém, diferente da grande maioria, não gostei muito da obra, pois achei excessivamente rasa. Muitas pessoas que haviam lido mais que um livro apenas, exaltavam Boyne, e isso me intrigava. Não se pode julgar um autor analisando uma só obra, e com Uma história de solidão tive a oportunidade de conhecer um pouco mais desse escritor. Dessa forma, pude traçar uma nova imagem a respeito da escrita de Boyne.
    O gênero é primordialmente o drama. Livros polêmicos que tratam dos mistérios da Igreja Católica — quando soube que essa era a trama, não pude deixar de recordar Dan Brown com "Anjos e demônios" e "O código da Vinci". Porém, o foco foi na sociedade irlandesa, predominantemente católica, traçando uma linha do tempo (desde a década de 1970 até os dias atuais) e tratando de algo que normalmente não sei ouve falar no centro de debates religiosos: a pedofilia praticada por padres. Apresenta uma forte crítica embutida em todo o enredo — e isso foi suficiente para me cativar.
    O narrador em primeira pessoa foi o próprio Pe. Yates, que conseguiu transportar todas as suas reflexões e experiências através de uma narração que mais parecia um diálogo espontâneo com o leitor. Senti-me como uma terapeuta, diante de um padre no divã. A escrita de John Boyne é perfeitamente “limpa” – aquele tipo que não é cheio de neologismos nem onomatopeias, apenas clara e objetiva –, coisa que notei também em “O menino do pijama listrado”, então não foi nenhuma surpresa eu ter me encantado mais uma vez com os talentos para escrever deste autor.

  A narrativa não é linear. Os capítulos se dividem de acordo com os anos que marcaram a trajetória do protagonista, e são aleatórios. A história vai se construindo de acordo com o que é revelado em cada momento da vida de Odran. As peças do quebra-cabeça vão se encaixando aos poucos, da forma como quase sempre ocorre nesses casos, e Boyne fez um ótimo trabalho ao ligar, em todos os capítulos, os pontos relevantes para a compreensão da obra como um todo.

"A sensação de o mundo existir com tal objeto de beleza, e tal objeto ser inatingível, era o tipo de dor mais delicioso inimaginável" (pág. 315).

    O maior destaque do livro é com certeza seu desenrolar a respeito da pedofilia praticada por padres – tema que só surge no meio do livro. Tudo que o antecede foca na vida de Odran, em seu período como seminarista, como professor do seminário, e como paroquiano. Também contém suas constantes impressões a respeito do mundo, através de um olhar melancólico, sofrido e, acima de tudo, solitário.
   Nos agradecimentos, John Boyne deixa suas fontes (em anônimo), esclarecendo que teve que contatar alguns integrantes do clero irlandês para conseguir todas as informações que pôs na obra, focando especialmente nos casos de pedofilia que eram encobertos pela Igreja. Ele retratou fielmente todos os escândalos da Irlanda desde o fim do século passado até o atual, e seus efeitos para a Igreja Católica no presente. É um cenário visto não apenas no meio irlandês – mesmo que lá o boom tenha sido maior –, mas em todo o mundo. Além de ter citado também as corrupções que permeiam a história clerical, explorando o que se chama de “cultura do secretismo”.
    A ligação entre Odran e Bruno (o protagonista de “O menino do pijama listrado”) foi inevitável. Ambos marcados pela ingenuidade. Bruno era apenas uma criança. Odran, alguém que narrou todas as etapas de sua vida – desde a mais tenra idade até quase os sessenta –, foi um personagem linear, que não mostrou uma verdadeira evolução. Chega a ter momentos de epifania, mas nada que o faça mudar completamente – o que torcemos para que aconteça o tempo todo! –, eles apenas serviram para complementar a história. Por ser um personagem muito passivo, que deixava todos controlarem sua vida, Odran acabou sendo enfadonho, e era impossível não sentir raiva por ele não tomar as atitudes que desejava.
  Não é fácil um narrador-protagonista mostrar toda sua personalidade. O que ocorreu ao final da leitura foi que Odran deixou a si mesmo no escuro, assim como o leitor, por não ter se revelado completamente. Era impossível saber o que ele realmente queria de sua vida, desvendar como ele se sentia a respeito das coisas pelas quais passava. Portanto, foi um personagem que poderia ter sido mais bem construído, pois dessa forma, deu abertura para que personagens secundários – bem mais impactantes – tomassem sua importância e conduzissem o enredo.


     A única real incoerência que puder perceber foi a relação de Odran com Tom – um personagem extremamente enigmático, que, ao contrário do protagonista, soube marcar bem o enredo. Eles tinham personalidades opostas, e mesmo que não duvide que uma amizade possa surgir nesse meio, não houve nada que justificasse a ligação tão forte que eles insistiram em ter ao longo dos anos, além do fato de que dividiram o mesmo dormitório. Isso acabou deixando uma impressão menos sentimental do livro, que apesar de ser um drama, não foi totalmente convincente nesse aspecto.
  A história em si é bastante envolvente, mas a descrição dos cenários – de Dublin à Roma – contribui em maior grau para que tudo pareça ainda mais verossímil para o leitor. Ler a respeito dos pontos turísticos, as lojas, as estações de trem, as escalas por Odran passa durante suas viagens, as basílicas, etc., mergulha a imaginação no mundo fictício – mas não tanto assim – do livro.
 A capa ilustra muito bem determinado momento na vida de Odran, que foi um verdadeiro divisor de águas para seu destino. Ela é carregada de um significado imenso, que apenas quem leu a obra poderia entender.  A diagramação seguiu com a elegância simples da obra, como em outras do autor, caracterizando seus livros de forma original. Houve alguns poucos erros de revisão nesta edição, que ocorreu com substituição de letras durante digitação, porém nada grave que possa dificultar a leitura.
    Uma história de solidão carrega dentro de si uma boa carga de ousadia e coragem pela abordagem de um assunto tão sério escrito por um irlandês que não teve pudores de explorar aquilo que pode causar vergonha em muitos dos habitantes do país. É impossível não se sentir tocado pela realidade disfarçada de ficção da trama, apesar da superficialidade da narrativa. Todos os dados são apresentados friamente e causam todo o impacto que o assunto merece causar na mente das pessoas que desconhecem a fatalidade do problema — não apenas em um país europeu isolado do qual muitos mal ouvem falar — mas em todo o mundo.

Primeiro parágrafo: "Só depois que cheguei à meia-idade é que passei a ter vergonha de ser irlandês".
Melhor quote: "Que mundo é este em que vivemos, quanto mal causamos às crianças".





Um Comentário

  1. Eu até agora não tinha encontrado ninguém que partilhasse da minha opinião a respeito de O menino do pijama listrado, o que senti foi justamente isso, que o livro foi muito raso para ser emocionante a ponto de me marcar. Gostei bastante da ideia desse livro, e estou pensando em dar uma chance a Fique onde está e então corra, também do autor, vamos ver no que vai dar.
    Adorei a sua resenha.

    Bjss

    bibbibokkens.blosgspot.com.br

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